sábado, 26 de novembro de 2016

Arte nas mãos da Vó Maria


Por: Valéria Freitas

.                          Vó Maria fazendo renda. Foto: Valéria Freitas                                             

A renda de bilro surgiu no século XV, na Itália, chegou ao Brasil com a colonização portuguesa. Na Zona Sul de Natal encontra-se a Vila de Ponta Negra, local cultural e rico em histórias. A renda de bilro faz parte da cultura do bairro, pois próximo à igrejinha fica um ateliê onde todas as tardes, das 12h às 17h, as artesãs se reúnem para fazer renda. 
Maria de Lurdes de Lima, de 82 anos, mais conhecida como Vó Maria, tem uma simpatia que encanta a todos que chegam no local. “Eu faço renda desde os meus sete anos de idade e aprendi a fazer com rendinha estreita, renda em metro, hoje só querem fazer com renda grosseira, querem fazer roupa”, disse.
Para Maria de Lurdes a renda tornou-se diferente na produção de antigamente para hoje, porque as rendeiras produzem mais pensando no lucro, não fazem exatamente porque gostam da arte de tecer.
O bairro vem sofrendo transformações e isso afeta diretamente nas finanças, ou seja, os moradores tentam encontrar outra maneira de sobrevivência, fazendo da sua arte um negócio próprio. O trabalho é manual, as peças demoram dias, semanas, ou até mesmo, meses para ficarem prontas. É um trabalho demorado e feito com cuidado, e mais valorizado por turista do que pelos próprios potiguares. 
As peças têm preços variados, as mais simples custam aproximadamente 30 reais, já as mais detalhadas chegam ao valor de 200 reais. Segundo Maria da Glória de Lima, de 56 anos, filha da Vó Maria, elas passam meses sem vender nenhuma peça.“Passei seis anos sem produzir nada de renda, meses atrás voltei a rendar algumas peças pequenas”, conta a filha.
Os jovens da Vila de Ponta Negra não têm interesse em aprender, levar a diante essa cultura, essa tradição local, “tenho netas e filhas, apenas uma sabe fazer renda, mas mesmo assim não gosta de fazer”, lamenta Vó Maria.                                              
“A tradição aqui em Ponta Negra já era para ter acabado, não acabou porque meu filho gosta de cultura e consegue alguns trabalhos e cursos para eu fazer”, conta ela.
Ela aprendeu a fazer a renda com mulheres que ela conheceu, em Pirangi, e pretende levar essa tradição para futuras gerações. “Eu tenho um amor tão grande pelo meu trabalho, pra mim é uma coisa muito boa, enquanto eu existir e Jesus me der mentalidade pra criar eu vou trabalhar com a renda de bilro”, afirma Vó Maria.